sábado, 17 de setembro de 2011

Foi só um sonho

Há o medo de tentar traduzir em palavras algo que as palavras não conseguem expressar. É como se, ao descrever a cena, as imagens fossem profanadas.
Que lugar diáfano era aquele? Onde será que existe aquela paisagem? E o sentimento que foi despertado em mim, como tê-lo novemente?
Por que sonhar com aquele lugar?
Resultado de leituras da noite anterior ou das viagens virtuais provocadas pelos debates sobre latinidade, que durante a semana me arrebatam, emocionam e despertam sonhos latentes, abafados e quase totalmente suplantados pelas tarefas do dia a dia.
Sonhos em vários sentidos, pois a paisagem era familiar, já conhecida de um tempo que não sei demarcar. O reencontro com um lugar que nem sei se existe em três dimensões. A sensação de voltar para casa, sem nunca de fato ter estado lá.
O que pode nossa imaginação? Qual o limite para nossos sonhos?
Eu não sei explicar.
O que poderia ter acontecido se a campainha não me tivesse despertado?
Pátios vazios. Ruas de pedra. Casas imensa, todas fechadas, mas vivas. Nenhum morador, apenas um artesão limpando vidros no que parecia ser uma loja de lustres, de cujo teto pendiam arcos, deixava-se invadir pela luz do sol.
Lembro ter pensado "É um belo lugar para um casamento, ainda que lhe faltem assentos e o sol, demasiado forte, cause desconforto aos convidados".
Um estação desativada no centro do pátio.
Como explicar a vida e atmosfera de movimento que enchia aquelas construções? Nenhum pó. Nenhuma destruição. Tudo pacatamente esperando o bloco carnavalesco que chegava.
Confete e Serpentinas. E um sem número de pessoas a subir aquela rua de pedra, com suas emblemáticas roupas de colombinas brancas e pretas. Máscaras. Não se ouvi a música do bloco, mas via-se seus componentes cantando e bailando naquela rua de um Poço da Panela que não existe.
Lembro do arrebatamento. Eu estava ali pelo lugar e me encantava em passar diante de todas aquelas janelas fechadas, jardinns maravilhosos. Uma árvore frondosa oferecia sua copa como guarda-sol sobre cadeiras de ferro e mesinhas circulares. Enfeitada com caqueiras em toda sua extensão. Como estariam ali, tão alto? Quem teria criado tamanha beleza?
E o anônimo limpador de lustres, em sua pequena torre, parecia não se incomodar com a invasão pouco ruidosa. Enquanto carnavalescos sentavam-se, exaustos pela subida, eu girava sobre a árvore, observando suas caqueiras, com olhos marejados, coração transbordando, voltando para o meu lugar, ao som de uma canção brasileira: "E o vento vai levando tudo embora".

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